Há pessoas baixas de pele morena e cabelo liso que andavam nuas antes de chegarem umas mais altas de pele branca e cabelos cacheados, fuzilarem seus corpos, sua cultura, língua, memória e vários registros históricos. Há pessoas de lábios sobressalentes com corpo bem definido, carnes rígidas, cabelo forte, grosso, que durante centenas de anos se agruparam de acordo com suas crenças comuns, hábitos e estilos de vida em diferentes grandes grupos ao longo de um continente inteiro. Os de cabelos cacheados e pele branca fuzilaram sua cultura, língua, memória, registros históricos diversos e também os seus corpos, diferente dos de pele morena e cabelo liso da América, os africanos foram fuzilados aos poucos, submetidos a condições de vida desumanas além e exauridos pelo trabalho forçado, arrancaram seu direito à dignidade, os mercantilizaram.
A justificativa ideológica do homem branco de cabelo cacheado vindo da Europa que genocidou 70 milhões de índios sul-americanos (Milton Santos, 2000) e 3 milhões de africanos é a de que há “raças” entre os homens, e que estas são inferiores biologicamente - o que as fazem menos inteligentes, menores intelectualmente e, portanto, não devem ter os mesmos direitos que os de pele branca no corpo - católicos e “civilizados”, com a “graça de deus”.
O aparato ideológico de cada época da histórica nasce pra justificar interesses políticos, colonizadores, econômicos, acumuladores, ou seja, o aparto ideológico de cada momento da história surge pra justificar poder/dominação. Essa antiga idéia do laço direto entre características fenotípicas(orgânicas) e as subjetivas (intangíveis como as idéias) como o caráter, a moral, a capacidade intelectual foi a “sopa no mel”, “casamento perfeito” entre os anseios de poder, dominação e colonização da nobreza européia com a sua incapacidade de compreender a abismal diferença cultural entre ela e aqueles povos recém descobertos que ali estavam repletos de recursos naturais hiper-valorizados pela sociedade européia da época. O interesse voraz de poder encontra seu mais perfeito encaixe nas doutrinas racistas desde tempos longínquos.
As doutrinas racistas passaram então a ser o grande alicerce de uma estratégia de poder e colonização que durou séculos e até hoje deixa sua herança maldita. Não se pode esquecer o quão conveniente foi a doutrina racista que diz que judeu é raça, e é inferior. Com essa justificativa e ideológia massificada nas mentes, na subjetividade coletiva dos alemães pôde-se colocar medo neles. Medo de que a raça deles, ariana pura, a melhor, se misturasse geneticamente com a dos judeus, inferior. Essa idéia levou ao genocídio de 4 milhões de judeus, o que os garante hoje um país inteiro onde está o maior santuário da sua religião – sim, judeu não é raça primeiramente por que seres humanos não têm raça, segundo por que ser judeu é ter uma formação religiosa e terceiro, se fosse raça, como se explicariam os judeus de cor da pele preta? Pensando a idéia de justiça histórica, a mesma que foi aplicada para justificar a criação do Estado de Israel genocidando o povo palestino islâmico (que também atribui a Jerusalém valor religioso incomensurável), por que não estamos nos esforçando para criar um país de proporções semelhantes para os 3 milhões de humanos de cor da pele preta que foram genocidados em nome da super-exploração sub-humana gananciosa dos que se acha(va)m superiores? Por que o genocídio dos judeus é mais lembrado e mais importante que o dos Africanos e Índios de toda América que foram genocidados? Por que os índios da América do sul não têm um país do tamanho da América já que 70 milhões foram genocidados e isso representa 17,5 vezes mais que judeus no holocausto? Por que hoje os judeus têm poder econômico, bélico e principalmente ideológico para criar justificativas para a existência do seu estado também genocida. Em nome do holocausto hoje são mortos palestinos e quem mais estiver no caminho dos interesses territoriais e econômicos do país Israel. Justamente por discordar do genocídio amparado no próprio é que nem todos os judeus concordam com a criação deste estado, o que traz uma separação entre os Judeus que estão ao seu favor, chamados Sionistas e os que discordam, esses são apenas judeus. O que é ser judeu? É religião/cultura/modo de vida/crenças/valores.
Dizem que foi o vitiligo que deixou ele branco, mas, e o nariz afilado? Por que será que o cirurgião deixou os lábios do cantor tão finos? E também o nariz? O vitiligo se espalhou pelo corpo todo? Pensei que o tratamento era para que o cantor se curasse, não pra que a doença se espalhasse. O cantor se identificava com padrões de beleza de uma cultura historicamente racista, cujos valores ojerizam as características dos africanos e também dos índios. Que o cantor se identifique com o padrão de beleza X ou Y me é insignificante desde que cantando ele seja bom. O que deve ser importante mesmo é o caráter, o talento do ser humano, e não sua cor da pele, no entanto, o cantor jamais poderia defender uma causa de combate ao racismo daqueles que têm pele preta, seria no mínimo contraditório e não teria a menor credibilidade. Seguramente devem haver ativistas ambientais que jogam bituca de cigarro no chão, seriam chamados os Ambientalistas Jackson?
Se pensamos como povo negro (negro? Preto é feio? Bom, se eu digo branco sem remorso, vou dizer preto) – bem, se pensamos como povo preto e organizamos o movimento preto podemos reverter essa situação combatendo o racismo contra nosso povo mas, espera, qual é o “nosso povo”? e se a gente consegue o poder, agora que estamos todos misturados, qual seria a quantidade de melanina na pele para determinar quem teria direito à justa recompensa por nossas transformações? – Devemos repensar a discussão, estamos voltando ao mesmo erro primário do qual fomos e somos vítimas por séculos. Estamos nos unindo pela cor, mas como mudar se não for assim!? Quem sabe se discutirmos pensando em combater o preconceito e o racismo contra cor da pele, o preconceito por características fenotípicas... é paradoxal e contraditório nos unirmos por uma característica orgânica, meramente fenotípica para combater justamente essa classificação por cor da pele !? A conseqüência natural é entrarmos num ciclo infinito, um eterno aparthaid de idéias, agrupadas pela cor da pele. Idéia não tem cor. Precisamos repensar a identificação de nossas crianças com padrões de beleza da realidade brasileira e de cada região, que é misturada, temos que fazer isso através da educação familiar e escolar em toda a sociedade brasileira, e isso não deve ser uma bandeira de cor da pele, é uma bandeira do povo brasileiro que precisa e merece ter acesso à educação de qualidade , saúde, moradia e poder de compra digno. Precisamos rever urgentemente a diferença histórica e o legado de atraso deixado pela nossa selvagem colonização e seu aparato ideológico que a justificou, mas precisamos nos perguntar com que meios fazemos isso para não manter a continuidade desse ciclo adeternum – combater os males históricos conseqüência de se enxergar o outro pela melanina, nos enxergando por ela. Precisamos discutir economia/ poder (distribuição de renda, repartir a terra) para um povo misturado por fora (de cor, de nariz, de gordura ou magreza, de tudo fenotípico) e por dentro (nossos valores nacionais, regionais, musicais, gastronômicos, literários) como é o povo do Brasil.
O que é ter a cor da pele preta? Lábios e narizes grossos, cabelo duro? É inevitável que essas características fenotípicas remetam ao genocídio histórico do qual foram vítimas os que as possuem, no entanto, como transformar a herança maldita deixadas até os dias de hoje, que fazem com que mesmo tendo muito dinheiro uma pessoa de cor da pele preta seja barrada na entrada de um evento qualquer, muitas vezes por alguém de cor da pele preta também? Seguramente essa mudança não virá enquanto não discutirmos nossa identidade, nossos valores. Por imposição nossa sociedade valoriza a beleza européia, loura de cabelo liso. Será que não seria o momento de pensarmos em rever nossa identidade, recriá-la incluindo a nossa própria aceitação fenotípica com um alicerce cultural que a fundamente?
Terça-feira, Março 16, 2010
Com Né Que Tamo #2 - Sobre Valores e Cores (idéia não tem cor)
Postado por Getkin às 07:17
Seção: Com Né Que Tamo
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2 É Mermada:
Excelente discussão e o post muito bem embasado Guillermo. Me fiz entender agora, aquela nossa discussão de tempos atrás. O Brasileiro, seja lá qual seja sua cor, se tenha cabelo ou não, se tem miopia ou olho claro, precisa acima de tido VALORIZAR o contexto do seu país. E saber que as diferenças estão dentro da cabeça e não fora dela. Isso, no mínimo, pra comecar...
Muito bem fundamentado o seu texto Guillermão ! Me remete também a uma discussão de tempos atrás. Apesar de perceber e acreditar que houve pequenos (quase imperceptíveis) avanços na questão do racismo no Brasil e principalmente na Bahia, aonde 70% da população é negra, acho que falta uma melhor compreensão da magnitude destes dados "genocídas" de diversas civilizações no decorrer da "evolução" humana, essa ideia realmente não tem cor !
" É preciso explicar por que o mundo de hoje, que é horrivel, é apenas um momento do longo desenvolvimento histórico e que a esperança sempre foi uma das forças dominantes das revoluções e das insurreições, eu sinto a esperança como minha concepção de futuro" Jean Paul Sartre,
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